Yula mora nos EUA

Correspondente do SBT nos EUA, a jornalista Yula Rocha conta com exclusividade sobre a rotina de uma repórter que mora há mais de quinze anos longe de seu pais e precisa se acostumar com novas culturas, fuso horário, rotina familiar, entre outros perrengues da carreira.

Descoberta pela jornalista Ana Paula Padrão, Yula participou de coberturas importantes como o Furacão Katrina, eleições americanas, atentados em Londres, entre outras. Yula e sua equipe entrevistaram com exclusividade a ex-esposa do atirador que matou dezenas de pessoas em uma boate nos EUA. As revelações da americana mudaram inclusive as investigações do FBI.

A jornalista coleciona passagens pela Globo, Globo News e o jornal O Globo. Confira o bate-papo:

Quais as principais dificuldades que você já enfrentou? 

A grande dificuldade aqui no exterior, do ponto de vista jornalístico, é de se conseguir boas entrevistas, especialmente em Nova York, a capital mundial da mídia. Quando a economia do Brasil estava aquecida e o país era visto como grande potência emergente no mundo, o interesse em falar com a gente aumentou. Infelizmente, com a atual conjuntura política e econômica, voltamos quase à estaca zero.  Aprendi a lidar com a frustração de uma negativa, mas cada vez que conseguimos uma boa produção, é motivo para o nosso jornalismo comemorar.

Já enfrentou algum perigo? 

Eu cheguei aos Estados Unidos dias após o furacão Katrina em Nova Orleans em 2005, parecia um prenúncio do que poderia enfrentar durante minha estada no país. De lá pra cá, fizemos todas as coberturas de grandes desastres naturais como nevascas e furacões. Mas o maior perigo que enfrentei foram as primeiras manifestações do movimento de afro-americanos contra a violência policial. Em Baltimore estávamos na linha de frente da polícia e houve confronto.

A palavra medo existe no seu dicionário?

Eu vivo nos Estados Unidos, um país considerado alvo número 1 de atentados terroristas desde os ataques de 11 de setembro em 2001. Portanto, sim, tenho medo, especialmente depois que tive filhos, virei uma pessoa mais temerosa. Acho que é natural do instinto materno. Mas tento não pensar nisso.

Qual o limite na busca pela informação? 

O limite é sua própria segurança. Mas qual é o limite? Bem, isso depende de cada um e da importância daquela notícia. Recentemente, nós conseguimos um furo internacional ao ir atrás da ex-esposa do atirador da boate em Orlando. Estávamos no Colorado, trabalhando numa outra pauta, e descobrimos que ela vivia no estado. Passamos o dia atrás dela, até encontrarmos o endereço no meio do mato numa cidadezinha a uma hora da capital Denver. Com muita insistência conseguimos não só que ela e o noivo, brasileiro, gravassem entrevista, mas também que ela revelasse que o ex-marido tinha tendências gays, e essa declaração mudou a cobertura da imprensa mundial que focava na questão apenas do terrorismo.

Como lida com a saudade da família, amigos, entre outros? 

Eu sou muito próxima da minha família, especialmente da minha mãe que vive no Rio de Janeiro, mas graças à tecnologia hoje nós nos falamos frequentemente pelo Skype. Ela pôde ver de longe os primeiros passinhos dos meus filhos e acompanhar o crescimento deles. É triste pensar que a avó não está presente, mas dá para amenizar a saudade dessa forma. Com meus amigos mantenho contato diário pelas redes sociais. Mas nada nesse mundo substitui a presença física, disso eu sinto muita falta.

Como se adaptou às mudanças de clima, cultura? 

O inverno em Nova York é penoso – muito frio e muito longo, eu não me acostumo também quando escurece às quatro da tarde, é um pouco “deprê”. Mas por outro lado aprendi a curtir as estações do ano:  todos ficam mais reclusos no frio, recebemos amigos, tomamos um vinho, fazemos boneco de neve e quando chega o calor a cidade se transforma, vira uma festa e todo mundo corre para aproveitar ao máximo o sol.  Sobre a adaptação à cultura, acho que foi mais fácil porque Nova York é uma cidade multicultural e isso é o que mais curto aqui – saber que meus filhos vão conviver com crianças de todos os cantos do planeta, com outras línguas, com outras religiões, raças, outros costumes. Espero que cresçam sem preconceito e com mais tolerância ao próximo. O mundo precisa disso.

E as pessoas que te acompanharam? 

Eu estava fazendo mestrado em Londres quando recebi o convite para trabalhar para o SBT em Nova York. Meu namorado, na época, decidiu vir comigo pra cá. Nos casamos e hoje temos dois filhos de 7 e 3 anos de idade. Posso dizer que o Brooklyn, onde vivemos, é hoje nossa casa.

O seu sonho sempre foi ser correspondente ou acabou acontecendo?

Nunca sonhei em ser correspondente internacional. Eu trabalhei para a Globo dez anos, onde a fila para uma oportunidade no exterior é bem longa. Mas as coisas aconteceram. Consegui uma bolsa de estudos em Londres, onde fiz mestrado em jornalismo internacional, e acabei cobrindo para GloboNews e o jornal O Globo o atentado de 7 de julho em Londres. Na mesma noite a Ana Paula Padrão, que na época acabara de se mudar para o SBT, me convidou para ser correspondente em Nova York. Acho que muitos colegas jornalistas diriam que eu estava no lugar certo, na hora certa.

Uma cobertura marcante?

A cobertura mais marcante para mim foi a primeira eleição de Barack Obama. Estava naquele parque em Chicago na noite da vitória e foi inesquecível. Destacaria algumas outras coberturas – a visita à prisão militar americana em Guantanamo, Cuba. Fui a primeira jornalista brasileira a ter autorização do Pentágono para entrar na base. O último lançamento do ônibus espacial da NASA também foi emocionante. Mais recentemente, as visitas do Papa Francisco e a do presidente Obama a Cuba marcaram a retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e a ilha comunista depois de quase meio século. Testemunhar a história não tem preço.

Quais as vantagens de ser um correspondente

O cargo de correspondente internacional é uma forma de reconhecimento a um profissional e também de muita confiança. No caso do SBT, estou sozinha aqui fora, sem a estrutura de uma redação, portanto tenho que tomar sozinha muitas das decisões de uma matéria. Mas não acho de forma alguma que seja uma “vantagem” ser correspondente, como mencionou na pergunta. Acho que todos numa redação têm exatamente a mesma importância para pôr no ar um produto de qualidade – do motoboy que vai trazer o material para a TV ao apresentador.

Como é a sua rotina?

Meu fuso horário varia ao longo do ano de uma a três horas atrás do Brasil, sendo assim sinto que já começo o dia “atrasada”. Eu envio cedo para a redação do SBT Brasil um relatório com os principais assuntos do dia dos Estados Unidos e sugiro também algumas pautas mais produzidas. Faço em média de quatro a cinco matérias por semana e ainda atualizo as notícias para o Jornal do SBT.

Por quanto tempo já ficou sem dormir, comer, etc?

Dormir? Comer? Em grandes coberturas isso não acontece. No máximo um sanduíche no caminho. Eu fiz recentemente uma longa viagem de doze dias para uma série especial sobre energias renováveis nos Estados Unidos e, ao voltar pra casa, fui diagnosticada com uma pneumonia por conta de muita exaustão. Aprendi que temos que ouvir o corpo, mas muitas vezes a notícia fala mais alto.

Conta com a ajuda de outras pessoas como empregados em casa? Se não, como você resolve essa questão? 

Viver no exterior é um malabarismo com dois filhos – sem a estrutura que uma família de classe média tem no Brasil e sem ajuda da família. Nós temos uma babá que é meu braço direito e esquerdo, mas ela passa cinco horas por dia em casa. Meu marido, que também é jornalista, tem uma rotina de trabalho mais flexível e ele assume as crianças e os afazeres da casa quando a babá vai embora – lavar, cozinhar, limpar – até que eu seja liberada do dia. Quando viajamos juntos para uma cobertura, trazemos minha mãe do Brasil ou minha sogra da Inglaterra para ficar com os meninos.

Usa mais carro ou transporte público? 

Me libertei do carro quando me mudei para cá. Só pego metrô e raramente táxis, até para trabalhar com meu equipamento de TV. É maravilhoso poder sentar no trem e ler um livro sem se preocupar com trânsito e estacionamento.

Já pagou algum mico por conta da cultura local? 

Meu maior mico aqui eu pago até hoje: bato palmas para cantar parabéns em festinhas de aniversário. Acho a forma como eles cantam meio triste e prefiro a animação do parabéns pra você do brasileiro.

Quando os brasileiros te encontram, o que eles mais dizem? 

Quando encontro brasileiros na rua todos me perguntam se eu conheço o Silvio Santos, e infelizmente ainda não tive esse privilégio. Os imigrantes que vivem aqui fora também me perguntam quando poderão assistir ao SBT no exterior.

A vivência no exterior fez você ter uma visão mais positiva ou negativa em relação ao Brasil? Por quê?

Eu sou brasileira de coração e, apesar de tantos problemas, eu defendo o Brasil com unhas e dentes. Sair da redoma me fez enxergar o país de uma forma diferente e enfatizar principalmente as coisas boas que nosso Brasil têm, e são muitas. Mas o momento atual não tem ajudado e pela primeira vez em doze anos no exterior não fui ao Rio este ano, uma decisão pessoal. Espero que a gente volte a prosperar, mas vivo uma fase de desesperança global com tantas notícias ruins que, como jornalistas,  somos obrigados a cobrir.

Yula e sua equipe durante reportagem do SBT Brasil