Matheus Nachtergaele é o protagonista de O Auto da Compadecida (Divulgação / Globo Filmes)
Matheus Nachtergaele é o protagonista de O Auto da Compadecida (Divulgação / Globo Filmes)

A Globo pegou os espectadores de surpresa neste início de 2020. A expectativa era que o canal exibisse a minissérie Hebe, que, por enquanto, ficará apenas no GloboPlay. Enquanto isso, a emissora abre sua linha de shows do ano com um oportuno repeteco de O Auto da Compadecida. A microssérie em quatro episódios volta exatos 21 anos depois de sua estreia, com edição caprichada e qualidade intacta.

Trata-se de uma merecida homenagem aos mais de 20 anos da produção. O Auto da Compadecida, série de Guel Arraes baseada na obra de Ariano Suassuna, é um divisor de águas na linha de minisséries da Globo. Além de ser a produção de maior audiência do segmento, O Auto da Compadecida também foi a responsável por estreitar as relações entre TV Globo e Globo Filmes. Ao editar a série, transformá-la num longa-metragem e levá-la aos cinemas (onde repetiu o sucesso), a emissora deu início a um intercâmbio de produções que ajudou a fortalecer o cinema nacional. Séries que viram filmes e filmes que viram série se tornaram mais comuns depois disso.

Além disso, o fato de O Auto da Compadecida ter se tornado um longa-metragem acabou por ajudar a perpetuar João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) no imaginário popular. Afinal, uma produção curta exibida na TV pode, aos poucos, cair no esquecimento. Já um filme tem uma vida útil muito mais longa, com exibições constantes nas mais variadas janelas. Assim, a saga de João Grilo acabou por alcançar uma plateia muito mais ampla. Com isso, fez história.

Série é bem melhor que o filme

Transformado em filme, O Auto da Compadecida foi visto e revisto. Porém, a série jamais foi revisitada pelo espectador sem acesso a DVDs ou outras plataformas. Por isso, o retorno à tela da Globo, remasterizado, na ocasião de seu aniversário de 21 anos, não é só oportuna, como necessária. Uma obra deste quilate merece ser revista ou descoberta pelas novas gerações. Afinal, a série tem mais tempo de arte e tem uma narrativa bastante superior à versão para os cinemas.

O Auto da Compadecida é uma adaptação brilhante de Guel Arraes. O diretor produziu uma minissérie genuinamente brasileira, dando-lhe um ritmo clipado e pop que soava bastante moderno para a época de sua primeira exibição, em 1999. Além disso, tem um elenco primoroso. A série projetou Matheus Nachtergaele ao Brasil, ao mesmo tempo em que reafirmou o talento de Selton Mello. Também conta com participações luxuosas de Denise Fraga (Dora), Virgínia Cavendish (Rosinha), Diogo Vilela (Eurico), Marco Nanini (Capitão), Maurício Gonçalves (Jesus) e Fernanda Montenegro (A Compadecida), entre tantos outros grandes nomes.

Isso sem falar que a reprise faz o público matar as saudades de nomes como Rogério Cardoso (Padre João) e Paulo Goulart (Major Antonio Moraes). Em suma, trata-se de uma produção que sempre vale a pena ver de novo.

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