Ramiro (Fabio Assuncao) e Ramirinho (Jesuita Barbosa) de Onde Nascem os Fortes
Ramiro (Fábio Assunção) e Ramirinho (Jesuíta Barbosa) de Onde Nascem os Fortes (Divulgação/TV Globo)

No final de 2018, a Rede Globo bateu o martelo e divulgou oficialmente que 2019 seria o primeiro ano sem uma novela das 23h, ou “supersérie”, na grade da emissora. A primeira foi O Astro, em 2011. E o termo “supersérie” passou a ser usado quando da estreia de Os Dias Eram Assim, em 2017. Segundo a jornalista Cristina Padiglione, um dos motivos para as “férias” do formato é a dificuldade de vendas internacionais. Como não são novelas tradicionais nem minisséries na acepção comum do termo, elas criam dificuldades no mercado externo.

Ao longo do ano passado, foram vários os projetos divulgados na imprensa como ocupantes da faixa das 23h neste ano. Desde Irmãos de Sangue, de Euclydes Marinho, baseada na obra de Shakespeare, até O Selvagem da Ópera, escrita por Maria Adelaide Amaral que conta a vida do maestro Carlos Gomes, não faltou alternativa para a Globo manter o projeto das “superséries”, ou novelas das 23h. Em tempos como os atuais, nos quais qualquer projeto mais apurado enfrenta dificuldades ou, ao menos, alguma resistência de parte do público nos horários mais comuns, a faixa tardia mostrava-se ideal para os autores-roteiristas desenvolverem histórias que as próprias novelas das 21h eventualmente exibiriam até há pouco tempo.

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O horário das 23h: a esperança de uma abordagem de temas sérios com menos amarras

Nos anos 2000, a Globo investiu em “macrosséries”, minisséries mais longas do que o habitual, mas ainda menores do que as novelas comuns. Só para exemplificar, A Casa das Sete Mulheres (2003) e Um Só Coração (2004) foram algumas. Entre o fim da década e o início da atual foram exibidas algumas histórias bem curtas, como Dalva e Herivelto – Uma História de Amor (2010). Até enfim lançar a “novela das 23h”, que não era mais do que uma macrossérie renomeada. Para celebrar os 60 anos da telenovela brasileira, em 2011, a obra escolhida para inaugurar a faixa foi O Astro, de Janete Clair. A adaptação de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro ganhou o Emmy de melhor novela. O original foi ao ar em 1977/78 e é um marco.

Seguiram-se, à razão de uma adaptação de algum clássico da emissora por ano, Gabriela (2012), Saramandaia (2013) e O Rebu (2014). No ano de seu 50º aniversário, 2015, a Globo apostou numa história inédita, Verdades Secretas. Seu sucesso abriu caminho para outras novas novelas, a partir de Liberdade, Liberdade (2016). A possibilidade de escrever histórias mais ousadas, em virtude de serem exibidas mais tarde, e também por serem menores, com no máximo metade da duração de uma novela convencional, fizeram os olhos dos autores brilharem.

Possíveis novos projetos para a retomada da “supersérie” em 2020

Gilberto Braga desenvolveu uma sinopse para as 23h. Todavia, como as mudanças de horário e ordem na fila das histórias globais têm sido frequentes, nada impede que ela vá ao ar às 21h. Walcyr Carrasco confirmou os boatos de que fará uma “segunda temporada” de Verdades Secretas. Com efeito, ela só será adiada porque o autor foi designado para fazer A Dona do Pedaço, que estreia às 21h em maio.

Maria Camargo segue trabalhando na adaptação do romance Um Defeito de Cor. E Maria Adelaide Amaral, ao que consta, terá O Selvagem da Ópera no ar em 2020. A explicação dada para o adiamento do projeto foram dificuldades de produção que impossibilitariam a estreia em abril deste ano. Euclydes Marinho, além do projeto que reuniria elementos de diversos textos de Shakespeare, tem outra carta na manga. Sem Limite foi o título divulgado primeiramente para uma junção de tramas e personagens da obra de Nelson Rodrigues. Seria essa novela, aliás, que ocuparia em princípio a faixa das 23h em 2019, conforme notícias de cerca de um ano atrás.

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O que cobrirá a vaga da “supersérie” da Globo em 2019

Pelo menos duas produções lançadas primeiro em plataformas pagas serão tiradas da cartola pela Globo para preencher a faixa das 23h em 2019. A saber, Assédio, de Maria Camargo, e Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Ricardo Linhares. As duas devem ser exibidas a partir de abril, após o término do BBB19. No entanto, como noticiado pelo jornalista Daniel Castro em dezembro de 2018, haverá um hiato entre as duas no horário. Cada uma é composta de 10 episódios.

Assédio é baseada na vida do médico Roger Abdelmassih, especialista em reprodução humana. Dirigida por Amora Mautner, a história tem como protagonista Roger Sadala (Antonio Calloni). Sua relação com as duas esposas (Mariana Lima e Paolla Oliveira) e os crimes de estupro permeiam a narrativa. Se Eu Fechar os Olhos Agora é baseada no romance homônimo de Edney Silvestre. Na trama, os adolescentes Paulo (João Gabriel D’Aleluia) e Eduardo (Xande Valois) são acusados injustamente da morte de Anita (Thainá Duarte), cujo corpo encontram.

Além disso, uma nova temporada do reality musical The Voice e eventualmente outro formato a ser desenvolvido. A segunda linha de shows da Globo, como é chamada a faixa de programação das 23h, será constituída assim entre abril e setembro. Anteriormente, mais tempo era preenchido pelos capítulos das novelas das 23h, ou superséries. A menor foi O Rebu, com apenas 36, ao passo que Os Dias Eram Assim (2017) foi a quase 90.

Era necessário suspender a “supersérie”, ainda que temporariamente?

Conquanto se compreenda que erguer uma novela do zero a poucos meses da estreia é tarefa difícil, sabe-se também que não seria a primeira vez que a Globo faria isso. Ademais, por que não acionar Euclydes Marinho para adequar uma de suas minisséries ao desejado? Ou mesmo encomendar novos projetos a outros autores? Algo possível de ser feito mais rápido em termos de produção. E que contivesse elementos de dramaturgia envolventes e bem mesclados. Algo digno do horário. Nem seria preciso recorrer a produções de época, com um presente tão rico e controverso a retratar. Não faltam nomes, na casa e fora dela, para isso. Não se sabe se a falta da supersérie em 2019 é fruto de confusão interna ou de estratégia. No entanto, espera-se que seja a segunda opção a verdadeira. E que, em sendo, a estratégia se revele acertada.

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